Século XVIII

O sertão e a estrada

Antes da cidade, só mato cortado pela Estrada dos Goyazes — a Estrada Grande, que ligava São Paulo às minas de Goiás. Por ela passavam tropas, boiadas e bandeirantes; à sua margem, postos de fiscalização guardavam a fronteira paulista.

1745 em diante

Ouro e fronteira

A descoberta de ouro em Santana do Sapucaí, Ouro Fino, Cabo Verde e Jacuí atraiu gente e acelerou a ocupação. Foi aqui que Jerônimo Dias Ribeiro defendeu, por mais de 40 anos, a divisa de São Paulo contra o avanço mineiro.

A ermida das Caldas · 1794

As águas santas

Nos Campos das Caldas, o padre Manuel Gonçalves Correia ergueu a ermida de N. Sra. do Carmo junto às “águas santas” sulfurosas. Centro de evangelização dos sertões, foi um dos marcos da ocupação da região — hoje desaparecido.

As terras

As sesmarias

O sítio onde a cidade nasceu ficava na sesmaria do padre João Junqueira, da Pedra Branca até o Jaguari. Em volta, as sesmarias de Ramalho, dos Garcia Leal e do guarda-mor Peçanha foram desenhando o município.

c. 1824

De Santo Antônio a São João

A povoação chamou-se primeiro Santo Antônio. O padre Ramalho mudou o nome para São João da Boa Vista, “em razão da posição alegre em que está colocada a povoação e da vista que dali se goza”.

1838 → 1910

De freguesia a cidade

Freguesia em 1838, vila em 1859, cidade em 1880. Em 1900 já eram quase 24 mil habitantes; em 1910 chegavam luz elétrica, telefone e cinematógrafo. A arranchação virara uma cidade do café.

Mapa antigo da região e a Estrada dos Goyazes Mapa dos registros e descobertos de ouro Documento manuscrito antigo Mapa de sesmaria Vista antiga de São João da Boa Vista A cidade nos almanaques
O sertão e a estrada — o caminho das minas, séc. XVIII

A mesma história em detalhe, com os documentos e as leis que a sustentam.

Antes da cidade: a estrada e o sertão

No século XVIII, esta região era apenas mato cortado pela Estrada dos Goyazes — a Estrada Grande, Boiadeira ou Francana —, que ligava São Paulo às minas de Goiás. Por ela passavam tropas, boiadas e bandeirantes, e à sua margem instalaram-se registros de fiscalização. Foi aqui que Jerônimo Dias Ribeiro defendeu, por mais de 40 anos, a fronteira paulista contra o avanço mineiro, numa disputa de limites entre São Paulo e Minas que só terminaria em 1937. A descoberta de ouro em Santana do Sapucaí (1745), Ouro Fino, Cabo Verde e Jacuí atraiu gente e acelerou a ocupação. Quem quiser percorrer esse período encontra os detalhes nas Histórias e no Mapa.

Antes era “Santo Antônio”

A povoação chamou-se primitivamente Santo Antônio, por haver um tal Machado feito doação ao santo dos terrenos do patrimônio, ao vencer uma demanda judicial. Criado o curato, o primeiro sacerdote, padre João José Vieira Ramalho, fez mudar o nome para São João da Boa Vista — em razão da posição alegre da povoação e da bela vista que dali se goza.

“Sendo creado curato, o primeiro sacerdote, padre João José Vieira Ramalho, fez com que se mudasse o nome para o de São João da Boa Vista, em razão da posição alegre em que está collocada a povoação e da vista que dali se goza.” — Resumo Histórico, Almanaque de São João da Boa Vista

As terras e as sesmarias

As terras em que se acha a cidade faziam parte da sesmaria do padre João Junqueira, que começava na Pedra Branca, em Caldas, e vinha até o Jaguari. Ao redor, outras sesmarias formaram o município: a do padre Ramalho (do Rio do Peixe, em Itapira, até o Jaguari), a dos irmãos Garcia Leal e a do guarda-mor Luiz Peçanha.

A Sesmaria Garcia Leal, de raiz açoriana (o tronco em Pedro Garcia Leal, nascido na Ilha de São Miguel por volta de 1710), foi formalmente medida e demarcada em 1813. Em 1816, foi dividida em duas fazendas — Vargem Grande e da Graça —, origem direta de Vargem Grande do Sul. A descendência está reconstruída na árvore genealógica. A ocupação foi acontecendo aos poucos, ao longo da antiga estrada dos Goyazes.

Para o lado de Caldas, a ocupação teve um marco religioso. Nos Campos das Caldas — onde brotavam as “águas santas” sulfurosas, conhecidas desde meados do século XVIII por curarem males da pele —, o padre Manuel Gonçalves Correia ergueu, na Fazenda Monte Alegre, a ermida de Nossa Senhora do Carmo e um cemitério. A ermida virou um centro de evangelização para os moradores dos sertões e o ponto de partida da povoação que daria origem a Poços de Caldas. Os títulos de terra — os “papéis-de-mão” — registram as sucessivas vendas e divisões que foram repartindo a região. Ermida e cemitério já desapareceram há décadas; a história foi reconstituída no Volume III da série, a partir de registros paroquiais e títulos de terra.

A tradição e o verdadeiro fundador

Uma tradição muito seguida, escrita pelo saudoso João Pires de Aguiar, atribui a fundação aos Machados, vindos de Itajubá (MG) por volta de 1822 a 1824. Conta-se que se arrancharam na confluência do rio Jaguari com o córrego de São João — diz a tradição que na véspera de São João Batista, o que teria dado nome ao lugar. Antonio Machado e D. Mariana doaram terras a Santo Antônio, em cumprimento a um voto. Mas os próprios cronistas reconheciam o papel central dos dois padres:

“O que, porém, não deve soffrer dúvida é que o verdadeiro fundador de S. João da Boa Vista foi o Padre João Ramalho, e que as terras em que se acha a cidade eram de propriedade do Padre João Junqueira, que naturalmente fez qualquer arranjo com o seu collega e amigo.” — Resumo Histórico, Almanaque de São João da Boa Vista

De freguesia a cidade

O reconhecimento oficial veio em etapas, por leis da Província de São Paulo:

“Artigo 1.º Fica elevada á cathegoria de cidade a actual villa de São João da Boa-Vista com a mesma denominação.” — Lei provincial nº 81, de 21 de abril de 1880

Entre a freguesia e a vila, a vida cívica já fervia. Em 16 de outubro de 1842 reuniu-se a primeira Assembleia Paroquial, presidida pelo juiz de paz Matheus Ferreira Martins; a ata foi assinada por 16 “homens bons” — entre eles José Tavares Coimbra, que em 1859 seria o primeiro presidente da Câmara. A igreja matriz foi concluída por volta de 1848, no largo, e o primeiro orçamento municipal saiu em 1860.

A cidade que cresceu

Os almanaques deixaram retratos da cidade em cada época. Em 1888, São João tinha “23 ruas e 5 largos, 280 boas casas” e cerca de 60 casebres nos subúrbios; a população era estimada em “12 a 14 mil”, e os registros traziam ainda 1.516 escravizados matriculados — o lado cru da economia do café. Em 1900, um recenseamento do Club da Lavoura contou 23.953 habitantes. E em 1910 já havia luz elétrica, telefone e cinematógrafo: a antiga arranchação virara uma cidade moderna. Veja os números no Painel e os marcos na Linha do Tempo.

Documentos da fundação

Manuscritos e mapas do século XVIII–XIX que sustentam essa história. Clique para ampliar.

Fontes: São João da Boa Vista nos Almanaques (1858–1910), Volume I — Jerônimo Dias Ribeiro, Volume III — A Ermida de Nossa Senhora do Carmo e a ocupação dos Campos das Caldas e 1824 — Como um padre, um posseiro e moradores das matas do Jaguari fundaram uma cidade, de Jaime Splettstoser Junior.