Exposições · exposição virtual

São João nos almanaques

De 1858 a 1910, os almanaques foram o primeiro espelho impresso da cidade. Listavam autoridades, fazendeiros, negociantes e moradores; mediam a população; anunciavam o comércio; e, sem querer, deixaram o retrato cru de uma São João do café em rápida transformação. Esta exposição reúne o que esses números e curiosidades revelam.

Página de almanaque de São João da Boa Vista
A cidade nos almanaques — clique para ampliar.

A cidade que dobrou em 17 anos

Os recenseamentos contam a explosão do café em três fotografias: 7.575 habitantes em 1872, cerca de 14 mil em 1891, 23.953 em 1900 (recenseamento do Club da Lavoura) e 31.010 em 1908. O próprio almanaque calcula um crescimento de “mais de 5% ao ano” e atribui o salto à imigração — não ao crescimento vegetativo.

7.575
habitantes em 1872 (primeiro recenseamento)
31.010
habitantes em 1908 — quase o quádruplo
1.516
escravizados matriculados (1888) — o lado cru do café

Uma cidade de muitas nações

O censo de 1908 contou a colônia estrangeira por nacionalidade, e o resultado surpreende quem imagina São João apenas “alemã”: 4.215 italianos (a maior colônia, de longe), 1.597 espanhóis, 796 portugueses, 197 alemães, 97 árabes (sírios), 82 austríacos, 30 suecos e 13 dinamarqueses — além de curiosidades como 1 suíço, 2 belgas e 3 cubanos. Sob os fundadores mineiros, a cidade do café era surpreendentemente cosmopolita.

O retrato social cru

Nem tudo era progresso. O censo de 1908 revelou que, de 31.010 habitantes, 25.014 eram analfabetos — 80,6%. E o próprio organizador confessa por que recensear era difícil:

“…é a repugnancia de uma parte do povo que nega informações, receiosa de que se trate de novos impostos ou de alistamento militar.” — Almanaque de 1910

A cidade moderna

Em 1910, a antiga arranchação já tinha luz elétrica, telefone e dois cinematógrafos; 199 casas de negócio e 2 bancos; 7 cervejarias e 38 olarias — “a provinciana São João mudou da água para a cerveja”. O café, que rendia ~150 mil arrobas em 1888, chegou a 540 mil arrobas colhidas em 1901.

A natureza que sumia

Num tom conservacionista precoce, o almanaque de 1910 lamenta que a caça o ano todo estava acabando com os bichos — e lista a fauna então existente: onças, queixadas, antas, capivaras, veados, lontras, tamanduás e aves como emas, seriemas, macucos, jacutingas e o pavão silvestre. Nos rios, dourado, piracanjuba, pacu e traíra.

Por que “São João”

E foi um almanaque que registrou a explicação do nome: os primeiros posseiros chegaram à barra do córrego com o Jaguari na véspera de São João Batista (1822–23) — o que batizou o ribeirão e, depois, a cidade.

Fonte: São João da Boa Vista nos Almanaques (1858–1910), de Jaime Splettstoser Junior. Números conforme os almanaques citados; a população de 1888 é estimativa do próprio almanaque.

← Todas as exposições